Brasão

 
 

Muito embora a Misericórdia tenha sido fundada em 1592, o brasão em vista deve ter sido elaborado muito posteriormente, pois denuncia toda a traça de uma arte
joanina em todo o seu arranjo envolvente dos dois elementos fundamentais que são

  1. O escudo real com a respectiva coroa;
  2. O oval contendo os signos normais de uma Misericórdia tradicional, como são:
    a. A caveira evocativa da caridade para com os mortos cuidando do seu enterro;
    b. A cruz com raios irradiantes partindo do centro, com uma auréola da fé;
    c. Um terceiro elemento sugerido no oval da Misericórdia, mas que, por razões desconhecidas, não foi completamente desenhado, limitando-se a duas
    simples tarjas, mas sem legenda alguma.
    Presume-se que teriam ficado inacabadas, pois tradicionalmente costumavam apresentar-se assim:

Dentro de um conjunto de bem acentuado estilo joanino, tudo o mais constante do complexo trabalho serão meras envolvências ornamentais, denunciando grandeza de aparato magnânimo, segundo o teor da época.
Um pormenor poderá, todavia, merecer alguma atenção.
As duas cartelas entre as quais se situam o escudo rela e o emblema da Misericórdia.
Poderão ser naturalmente meros envolventes ornamentais de mais aparatosa abrangência, com três aberturas para aliviar o aspecto geral.
Todavia, poderá ainda hipoteticamente fazer lembrar a fronte das três cabeças que se sabe existirem numa casa de Campo Maior, e três rostos simbolizando os três estados da vida humana: a infância, a juventude e a velhice, tal como se pode depreender dos três rostos.
Sendo assim, poderão ver-se assim evocados os três lendários fundadores de Campo Maior, sendo a casa onde se encontram considerada como a primeira que foi construída.
É que, segundo a lenda, três chefes de família que viviam dispersos no campo teriam resolvido agrupar-se para uma maior protecção. Escolhido o local que lhes oferecesse maiores garantias, por ser um espaço aberto e bem situado com vista sobre o horizonte que assim poderia ser bem vigiado, terão exclamado ao encontrá-lo:
“Aqui é o campo maior”.
Nos três rostos da referida casa nota-se bem a diferença de feições de acordo com as três idades, tal como nas três aberturas de cada uma das cartelas se nota uma gradual diferença de baixo para cima: a infância, mais pequena; a juventude mais larga; e a velhice, sublinhando já uma diminuição da juventude mas um pouco maior do que a da infância.

Símbolos Maiores

  1. Escudo real e coroa: lembrarão a permanente e perpétua protecção real dispensada pelos Soberanos portugueses a esta vila, e logo desde D. Diniz que lhe fez o castelo em 1300, como praça de armas na defesa fronteiriça do reino, a par de outros castelos na região como o de Ouguela, Olivença, etc.
    Entretanto, teria Campo Maior mais dois brasões de armas:
    I. Dado por D. Fr. Pedro Peres, bispo de Badajoz, da família dos restauradores, quando resgataram do poder dos mouros em 1219, tendo por armas N.ª Senhora com um cordeiro, e com esta legenda “Sigillum Capituli Pacensis”
    II. Segundo brasão lhe teria dado D. João II com as armas de Portugal de um lado, e do outro S. João Baptista. D. Manuel deu novo foral em 1512. De qualquer forma o escudo real e a coroa no brasão da Misericórdia evocarão perpetuamente a constante protecção real, dada a uma vila, e na qual a Misericórdia era uma instituição sempre protegida pela Coroa para servir o povo.
    III. No escudo referente à Misericórdia propriamente dita são de sublinhar as seguintes peças com o seu significado próprio:
    I. A cruz resplendorosa, símbolo sagrado do Redentor, prometendo a vida eterna a quem nele acreditasse e O seguisse
    II. A caveira com as tíbias, símbolo da morte, na terra onde os corpos descem, mas sobrepondo-se-lhe a cruz apontando o céu para onde a fé redime as almas.
    A sigla MIZA que não aparece claramente desenhada no brasão é uma forma antiga de abreviatura de Misericórdia, a mensageira do bem, da caridade e da esperança junto de todos os que sofrem.
    Tudo o mais serão meras envolvências de aparato artístico a emoldurar o centro do brasão.

    Símbolo das cores ou esmaltes
    Predominando o azul, o ouro, o vermelho e a prata, poderão ter o seguinte significado:
    - O azul: integridade e zelo na prática eficiente do bem e da Misericórdia;
    - O ouro: a nobreza de alma e firmeza no agir;
    - A prata: a humildade e discrição na prática do bem, bem como a esperança de sempre servir melhor.
    - O vermelho: símbolo fundamental do princípio de vida, lembrará a generosidade e força de ânimo, capaz de servir e defender uma causa até ao sacrifício do sangue.

Esta leitura foi feita por Manuel Ferreira da Silva, com a ajuda

do mestre heraldista José Benard Guedes, em 10.I.1999