História

As Origens Da Santa Casa Da Misericórdia De Campo Maior

 

É conhecido que para a instituição das Santas Casas da Misericórdia em Portugal, em 1498, contribuíram, significativamente, tanto no plano material como no dos principais ideais, as antigas albergarias existentes entre nós, desde os inícios da nacionalidade.

A fundação da Misericórdia de Campo Maior não vai fugir a esta regra. As rendas que serviram de sustento aos dois antigos hospitais, anteriores a 1498, vão ser transferidas para a Santa Casa, e até um desses edifícios servirá, por doação de um dos descendentes do instituidor, de primeiro hospital da Misericórdia campomaiorense, em 1598.Edifício do antigo Hospital da Santa Casa

A constituição de uma albergaria-hospital, em 1408, apresenta-se como a primeira instituição conhecida, dedicada à protecção e cura de doentes pobres em Campo Maior. Assim no-lo certifica um testamento em que João Vicente do Castelo, casado com Maria Anes Calvino, lega, naquele ano, os seus bens para se erguer na vila um hospital que se encarregasse de curar os pobres e de proceder ao enterramento dos que falecessem. (1)

Este hospital situava-se, provavelmente, junto à Igreja de Santa Clara dentro dos muros medievais, segundo consta de um testamento realizado em 1508 o qual refere que um Diogo Lopes Prioreso, “deixou umas casas que partem com Santa Clara dentro desta vila e com o hospital e outras casas na mesma rua”. (2)

Cerca de oitenta anos depois, certamente porque o primeiro já não satisfazia as necessidades, é criado novo hospital.

Diogo Lopes, Ovilheiro, e sua mulher Maria Rodrigues, deixaram, em 1483, avultados bens, nomeadamente “as suas casas de morada na Rua Direita (as quais confrontavam) com Lagar que foi do Ronquilho (e que naquele tempo trazia) Francisco Lopes, clérigo”, para nelas se instalar um hospital e lá “se agasalharem os pobres que a esta vila vierem e em ele quiserem pousar…”(3)

Um herdeiro daquele testador doa, em 1598, o dito hospital à Santa Casa da Misericórdia da vila, porque “a confraria não tem hospital (que assista aos) pobres assim desta vila como dos caminhantes que por ela passam (… )” (4)

As dificuldades da Misericórdia campomaiorense em conseguir instalar o hospital são-nos comunicadas por uma escritura do ano de 1592, na qual consta o interesse da confraria da Santa Casa, de que então era provedor André da Silva de Menezes, em adquirir umas casas próximo da Igreja da Misericórdia, “por quanto esta casa e confraria não tem nem teve até agora hospital em que pudesse curar os enfermos que a dita confraria provê e agasalhar alguns passageiros (…)” (5)

Desconhecemos a data exacta da fundação da Santa Casa da Misericórdia de Campo Maior. Sabemos, porém, que pelo menos em 1530, já se encontrava instituída, uma vez que um Fernando Gil, marido de Clara Afonso, pede, em testamento daquele do seu funeral, deixando para tal fim, “a esmola de duzentos reis”. (6)

Em outro testamento realizado em Elvas, em 1538, pode ler-se que Frei Masseu, da Ordem dos Capuchos, de nome verdadeiro, Martinho da Silva Telles de Menezes, deixa uma “herdade no termo de Arronches que se chama da Contenda e dos Degolados”, a seu irmão Ruy Telles da Silva, ambos, provavelmente, netos de Ruy Gomes da Silva, alcaide-mor da vila em meados de séc. XV, e pai de Santa Beatriz da Silva.

Aquela herdade é deixada com a condição de se o herdeiro indicado falecer sem descendentes, “que então a dita herdade fique à Misericórdia desta cidade de Elvas e à Misericórdia da vila de Campo Maior”. (7)

Conhecem-se mais provas que confirmam a existência desta instituição ainda na primeira metade de quinhentos.

Uma Questão de salários entre a Câmara Municipal campomaiorense e um médico que prestava serviço gratuito no Mosteiro de Santo António e na Misericórdia da Vila, é motivo para D. João III intervir e determinar, por provisão de 1549, que a Câmara Municipal pague salário mais elevado ao dito médico, antes que este, descontente, volte para Albuquerque, em Espanha. (8)

Se a instalação de um hospital próprio só foi conseguida várias décadas após a criação, da confraria da Santa Casa da Misericórdia, também a Igreja ou mais propriamente a ermida dadas as suas reduzidas dimensões, só foi edificada bem depois de instituída aquela irmandade.

Como já vimos, as primeiras noticias que revelam a existência da Igreja da Misericórdia, datam de 1592.

Por outro lado os testamentos só a partir de 1615 começam a referir o desejo dos testadores serem sepultados na Igreja da Misericórdia da Vila.

Tratava-se de uma igreja de que hoje não existe qualquer vestígio material, era muito pequena e encontrava-se construída no actual Largo Barão Barcelinhos, na face situada entre as ruas João Rosado e da Misericórdia, local onde ao longo dos tempos, ao realizarem-se obras, têm sido encontradas ossadas humanas.

Em substituição daquela igreja-ermida, construiu-se outra, cujas obras se iniciaram em 1718, contígua ao Hospital da Santa Casa que já existia, presumimos, desde o começo do séc. XVII, ainda que com feição diferente da que apresentava à data do seu encerramento e transferência dos respectivos serviços para o actual, sito na Quinta de S. Pedro.

A igreja possui pelo lado norte comunicação interior com o hospital, “com a porta principal para o Largo da Rua do Poço e a porta travessa para a Rua dos Gramáticos” (10), pelo lado sul.

  • Tombo I, da Santa Casa da Misericórdia, fls. 71
  • Livros da Provedoria de Elvas, nº 42, fls. 219.227. vº-276. Arquivo Distrital de Portalegre.
  • Idem, nº34, fls.135 vº.-137
  • Tombo I, da Santa Casa da Misericórdia, fls. 274 vº-276
  • Idem, fls. 33
  • Livros da Provedoria de Elvas, n.º 42, fls. 214vº-219
  • Tombo I da Santa Casa da Misericórdia, fls. 42 vº-45
  • Estêvão da Gama Moura e Azevedo. Noticia histórica de Campo Maior, p.79
  • Estêvão da Gama M. e Azevedo, obra citada, p.54 e 16vº.
  • Idem, p.16vº
     

Agosto 1986

Rui Rosado Vieira